BENGO, PROVÍNCIA SEM ENERGIA E SEM RUMO EM 24 ANOS DE PAZ

A apenas 54 quilómetros de Luanda, a província do Bengo vive uma realidade que desafia qualquer lógica de governação: 24 anos depois do fim da guerra, vastas zonas continuam mergulhadas na escuridão. A promessa de desenvolvimento nunca saiu do papel, e a proximidade com a capital apenas acentua o contraste gritante entre discurso político e realidade social.

Por Geraldo José Letras

O caso da Barragem das Mabubas tornou-se o símbolo maior do paradoxo: uma infraestrutura energética implantada na província, mas incapaz de iluminar os próprios municípios que deveria servir. Em pleno século XXI, localidades como Pango Aluquém, Kibaxi, Bula Atumba, Piri, Nambuangongo, Quicunzo e Muxaluando continuam sem acesso regular à electricidade.

A explicação oficial, apresentada pela governadora Maria Antónia Nelumba, aponta para “bloqueios financeiros” e dificuldades de financiamento. Mas a justificativa levanta uma questão incontornável: como se adjudicam obras estruturantes sem garantir previamente os recursos necessários?

O projecto de electrificação do chamado “Triângulo” — abrangendo Bula-Atumba, Dembos/Kibaxe, Pango-Aluquém e Piri — é apenas mais um entre vários empreendimentos que se arrastam há anos. A história repete-se: anúncios públicos, lançamentos mediáticos, adjudicações apressadas e, por fim, obras paralisadas.

Em Bula Atumba, o cenário é particularmente alarmante. Um município em crescimento populacional continua sem rede de transporte estruturada, sem abastecimento regular de água e sem energia eléctrica. A ausência de serviços básicos não é apenas um atraso — é uma condenação ao subdesenvolvimento.

Outros sectores seguem o mesmo padrão: infra-estruturas sociais (escolas e unidades de saúde) inacabadas ou degradadas; estradas secundárias e terciárias praticamente intransitáveis; projectos agrícolas abandonados, apesar do potencial produtivo da região; programas habitacionais prometidos, mas nunca executados.

Enquanto outras províncias recebem rapidamente financiamento emergencial — como no caso das cheias em Benguela, onde verbas foram mobilizadas para habitação e apoio empresarial — o Bengo permanece esquecido. A disparidade levanta suspeitas sobre critérios de prioridade e gestão de recursos públicos.

A realidade é dura: populações inteiras vivem sem luz, água canalizada ou oportunidades económicas, numa província que poderia ser um polo agrícola e energético estratégico para o país.

Falta de visão ou falência da governação?

O problema já não pode ser reduzido a constrangimentos técnicos ou financeiros. O que se observa é um padrão consistente de falta de planeamento, ausência de execução e défice de responsabilidade política.

A electrificação do Bengo não é apenas uma obra — é um teste à capacidade do Estado em cumprir funções básicas. E, até agora, esse teste tem sido reprovado.

A pergunta que fica no ar é simples, mas incómoda: se nem uma província colada à capital consegue sair da escuridão, o que dizer do resto do país?

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